Estou olhando para uma ampulheta e contando cada grão de areia que cai. Dentro dela existe areia o suficiente para medir o tempo de cinco anos.

Nela, o tempo não passa rápido.

Ao contrário da verdade universal que todos nós proferimos em algum momento: o tempo voa e cada vez mais.

Ele só não tem asas rápidas em duas situações. Quando você é criança e espera o Natal, ou quando você é um paciente oncológico esperando por sua remissão.

Nesses dois casos o tempo é um grão de areia, como se você estivesse olhando e contando cada um deles passando de um lado para o outro.

A sensação de espera da remissão é a mesma da criança contando os dias para o Natal.
O que me leva a pensar que, para uma criança com câncer essas esperas são potencialmente longas.

Devo confessar que eu usava o termo “criança com câncer” como se fosse algo bastante longínquo. Em 2011 fiquei muito sensibilizada ao conhecer o blog VidAnormal, da Carolina Varella, que narrava sua jornada com a filha. Estávamos no meio de ano e eu não fazia ideia do que me esperava naquele Natal.

O caso da Carolina e da sua filha comoveu várias pessoas que eu conheci. Vi o Fábio Yabu, ilustrador e conhecido de longa data, falar do caso e presentear a Ana Luiza com suas Princesas do Mar.

Continuei o meu tempo passando rápido. Pausei-o em breves férias, onde notei algo estranho em meu corpo. Pensei que não deveria ser nada demais.

Meses depois acordei de uma cirurgia com um dos diagnósticos mais improváveis: câncer, aos 29 anos, sem histórico familiar ou hábitos de risco. Em pleno Natal de 2011.

Os grãos de areia começaram a cair muito lentamente.

Enquanto cada um caía, lembrei daquele blog que eu vi meses antes, da Carolina e da Ana Luiza. Fazendo os grãos caírem ainda mais lentamente – não li boas notícias. Ana Luiza não resistiu e sua história havia dado início a uma ONG com uma missão linda: potencializar a chance de cura de crianças da região norte do país, trazendo-as para a realização de tratamento de ponta em São Paulo através do Instituto ALGUEM.

Lembrando do envolvimento do Yabu com a história, escrevi para ele cometendo uma gafe. Na verdade, por admirar e conhecer o trabalho dele como ilustrador desde 1996 (desde a época das BBSs desenhando em ASCII), elogiei a marca que ele havia criado para o instituto.

Que gafe! O Fábio gentilmente respondeu dizendo que a marca não era uma criação dele, e sim da ilustradora Elisa Sassi e da publicitária Simone Mozzilli. Já copiou a Simone no e-mail, dizendo que ela também era paciente.

E novamente a vagarosidade da ampulheta aconteceu.

Um café, duas certezas

Eu e Simone marcamos um café em São Paulo. Ambas tínhamos histórias com várias intersecções. Anos trabalhando com digital e o susto do diagnóstico de câncer antes dos 35. O papo fez a ampulheta acelerar e saímos dali com duas certezas:

1. Que faríamos algo juntas, um dia;
2. Marcando uma nova reunião para 2017, ano em que nós duas já estaríamos livres de nossas vagarosas ampulhetas.

Meses depois Simone criou o Beaba, uma ONG focada em desmistificar o câncer. O Beaba criou uma série de iniciativas, entre elas mutirão para doação de sangue, auxílio às famílias, arrecadação de kit higiene para crianças e uma porção de outras ações.

Mas uma das brilhantes ideias foi a criação de uma cartilha, o Beaba do câncer, com ilustrações (da maravilhosa Elisa Sassi) e linguagem empática para crianças. O projeto é lindo em todas as facetas da palavra. Esteticamente lindo, moralmente lindo, criativamente lindo.

Demorou um pouco para o projeto da cartilha se tornar concreto. Em 2014 voltei a ouvir falar dele quando a Simone iniciou o crowdfunding da cartilha. Pouco tempo depois, cutuquei a Simone: “Si, por que não fazemos um game?”.

A ideia permaneceu incubada, quando vi o call for entries do Games for Change. Em fevereiro de 2015 submetemos a ideia do jogo para o festival, com a esperança de que ele fosse selecionado.

Não aconteceu.

Mas a história não acabou aí.

Esperanças renovadas

No final do mesmo ano, vimos o chamado do INOVApps. Esperanças renovadas e mandamos o projeto.

Fomos selecionados, sendo um dos cem projetos do edital de inovação do Ministério das Comunicações.

Meses de trabalho do estúdio Mukutu (spin off de games da Mkt Virtual), da Elisa, da Simone, da Gica, dos médicos e de uma porção de pessoas envolvidas com o Beaba.

Game pronto (com alguns percalços do edital, que permanecem até hoje) e o potencial da cartilha completamente amplificado.

O game chama-se AlphaBeatCancer, a união do Beaba e da Mukutu para criar um game 100% gratuito, disponível para iOS e Android com o foco de gerar empatia com crianças e pais diagnosticados.

O AlphaBeatCancer é uma forma direta e lúdica para se falar do assunto, jogando, matando células malignas, colorindo o acesso venoso, carregando o suporte da quimioterapia.

AlphaBeatCancer é sonho realizado que está começando agora. Atenderá mais de 13 mil casos de câncer infantil (só no Brasil), além dos mais de 500 mil casos anuais da doença diagnosticados todos os anos. O jogo educa crianças, mas também educa os pais – fazendo todas as idades entenderem que pronunciar a palavra câncer não atrai a doença.

Todos precisam falar sobre esse assunto, pois não há cura mais efetiva para a doença que o diagnóstico precoce. Se você não sabe o que é remissão, metástase, mielograma, você precisa fazer o download do AlphaBeatCancer. É melhor aprender sobre um tema difícil enquanto se diverte, certo?

A (re)missão

Em 2016, no mesmo ano em que completo minha remissão (quase 5 anos e muitos grãos de areia já se passaram na minha ampulheta), vamos tentar levar o AlphaBeatCancer para o mundo.

Agora, com o game pronto para o mercado brasileiro, nós fomos selecionados para o Games 4 Change.

Estaremos em Nova York nos dias 23 e 24 de junho no evento mundial sobre games de impacto que acontece na Parsons Design School. Nosso objetivo é apresentar o jogo para os mais de 800 profissionais que estarão no marketplace – tentando transformar o AlphaBeatCancer em uma plataforma global.

Uma grande jornada até aqui. Talvez uma longa missão.

E melhor do que as missões, são as remissões que vivemos.

Missões aperfeiçoadas.

Vamos a mais uma no Games 4 Change 2016. O único estúdio brasileiro com um projeto por lá.
Uma bela missão. Que nos enche de alegria e nos prova que nenhum câncer é sentença.
É história numa ampulheta gigante.

Obrigada a todos que apoiaram, trabalharam e lutaram por esse projeto. Em especial a todos da Mukutu (isso inclui você, viu Fifo?), aos amigos do Rotary Santos (que nos ajudaram na etapa final de ida ao G4C) e a todos os entusiastas do Beaba e da Mukutu.